Tenho uma birra imensurável com a palavra tendência. Uso sempre direções. A mídia especializada já fez uma cobertura excepicional para o São Paulo Fashion Week, mas qual é o legado que essa edição deixa para a moda e o país? Segue as três principais direções que vi, amei e aposto
INTERATIVIDADE
Mais que a diversidade proposta, essa edição do SPFW foi pautada pela interatividade proporcionada pela evolução tecnológica. Em um treinamento de representantes, disse vez que o vídeo é para o século XXI o que a foto foi para o século XX e o São Paulo Fashion Week confirmou minha teoria.Cada vez menos dependemos de coberturas formais, feitas por grandes veículos. A produção de conteúdo independente ganha cada vez mais destaque na mídia, e o mais impressionante é a qualidade de conteúdo produzido. Cada vez mais rápido e cada vez mais próximo do real.
A super antenada Alexandra Farah deu uma aula de tecnologia. Transmitiu direto da primeira fila com uma câmera portátil, seu Macbook e um celular os três minutos de desfile permitidos. Simples e eficiente, inclusive sem provocar atrasos ou adiantar desfiles. Foi destaque, inclusive, no GNT Fashion.O conteúdo está disponível no site Filme Fashion.
A cobertura feita pelas personal stylists Fernanda Resende e Cristina Gabrielli foi, de longe, a mais “paupável” realizada pela mídia indie, graças ao toque especial da dupla em traduzir o universo da Moda para o dia-a- dia de gente como a gente. Além disso, rendeu ótimas risadas, como os “vídeo-tours” pela Bienal.Para quem não dispensa uma cobertura formal de qualidade temos ainda disponível na Web “zilhões” de vídeos do GNT Fashion, em seu canal on-line no globo.com
Ok, Erika Palomino tem razão quando diz que nada substitui as sensações que sentimos na sala de desfile durante um desfile incrível. Mas como todos os amantes de moda não podem estar lá, essa interatividade só pode ser benéfica, não é?
NÃO CONFUNDA RAPADURA COM MELADO
Como diria o dito popular, a rapadura é doce, mas não é mole não, se fosse mole seria melado. O mundo Fashion é glamouroso sim, mas ninguém disse que é tudo fácil.
Nina Lemos escreveu um ótimo artigo para a Folha sobre o receio dos fashionistas em assistirem ao desfile, as margens do Rio Tietê. Realmente de muito perto é muito pior.
Para os não assinantes da Folha segue a introdução do artigo:
“E se eu pegar alguma doença?” “Será que eu levo repelente?” As frases, ditas em tom de apreensão, estavam na boca de convidados da Cavalera para o desfile da grife, previsto para acontecer na manhã de hoje em um barco no meio do rio Tietê.
O temor está ligado ao medo de ser “atingido” pela poluição do rio, que recebe cerca de três bilhões de litros de esgoto por dia. A grife escolheu o local para fazer ao mesmo tempo um protesto contra a poluição no rio.O receio dos formadores de opinião relativo a locação do desfile me assusta. Não, não penso que a moda vá salvar o mundo, apesar de que o São Paulo Fashion Week muitas vezes tenta. Sem conscientização não há mudança, e o desfile da Cavalera foi uma ação de conscientização louvável. Claro que sempre temos receio do que é novo, mas penso que o foco nos “efeitos colaterais” do desfile deveria ter sido tratado como secundário. Quem sabe um dia vamos ver as ações que propostas bacanas pelas marcas e pelo próprio evento transportadas para o mundo da moda emescala fast-fashion.
- Educação? Quem sabe quando for tendência
A Elza não é modelo famosa, não é editora, não é estilista, não é assessora de imprensa, patrocinadora, chefe da segurança, nada demais. Mas foi uma das “personalidades” mais lembradas nesse São Paulo Fashion Week. A freqüência com que “deram a Elza”, eufemismo fashionista para roubar, foi altamente comentada nessa edição.
A forma mais óbvia de “dar a Elza”,é a que Érika Palomino comentou em um de seus posts, no blog dentro de seu site. É caso de polícia, não há argumento que justifique. Afinal, dentro da Bienal não esbarramos em muitos injustiçados socialmente, duvido que alguém que praticou esses roubos o fez por culpa do sistema ou que utilizará o dinheiro para necessidades básicas (lembrando sempre que calças Diesel NÃO são categorizáveis como necessidade básica).
A outra forma de dar a Elza, a mais presente, altamente praticada e tolerada, é aquela com as quais nos deparamos quando encontramos alguém em nosso lugar na sala de desfile ou ainda vemos que o brinde de nossas cadeiras sumiu. Esse relato hilário no site da Fiat primeiro faz rir, depois revolta. Explico o porquê na seqüência.Na minha visão, é um roubo tão grave quanto qualquer outro sentar em um lugar que não está marcado em seu convite, nem foi indicado pela assessoria de imprensa ou monitoria da sala de desfile. O investimento de um show pode chegar a 2 milhões de reais. Uma sala bem grande de desfiles comporta 1000 convidados sentados. Então cada convidado custa à marca aproximadamente R$ 2000,00.Esses convidados são mapeados por pessoas especializadas, de acordo com os interesses da marca que realizou o desembolso. Então quando sentamos em um lugar ao qual não pertencemos estamos, no mínimo, “roubando” os 2 mil reais investidos pela grife. O mesmo ocorre com os brindes, os patrocinadores investem para que sua marca chegue às pessoas certas, de acordo com seus interesses. E se você não recebeu o brinde em questão, não é a pessoa certa.Esses pequenos objetos e vitórias são tratados como troféus por algumas pessoas. Mas as vejo como os penetras de uma festa, elas podem até estar ali, mas no fundo todos sabemos que não pertencem ali. É chato estar sem pertencer, não é?É nessas horas que imagino, o marido perfeito da Elza não seria o Gerson, com sua lei?
-
Bem vindos à Era do Amor Fashion
Não conheço ninguém que teve algum tipo de contato profissional com o estilista Lorenzo Merlino e não tem uma boa história para contar, eu inclusive.
Como diria professor Peruzzo, estamos na Era do Amor. Em tempos em que os valores éticos e a “bondade” são vangloriados, temos que ter muito cuidado com o quê, como e onde fazemos, além de com quem nos associamos. A repercussão pode ser enorme e catastrófica. Porque está cada vez mais difícil esconder sujeira debaixo do tapete. Mesmo que a sujeira não seja sua, como alega o estilista.
Hoje, vi que essa história era capa da Flash. E concluo que no fundo todo esse basfond será benéfico para o estilista. Ele sempre será lembrado por alguma coisa, o que não conseguiu até hoje com seus desfiles altamente irregulares.
Para entender melhor:
Chic.com.br
Não quero discutir de quem a culpa, todos somos culpados e inocentes dependendo do ponto de vista e há um juiz designado para isso. Sinto muito pelo stress que a situação causou aos envolvidos. Mas que eu adorei ver a Era do Amor chegar ao SPFW, adorei.
OTIMISTA, PERO NO MUCHO
Estava muito curiosa para ver como seria a primeira São Paulo Fashion Week na era dos conglomerados. Já sabia que o desfile da Zoomp seria incrível, sem “pirotecnias”. Já esperava alguma “pirotecnia” por parte das novas holdings, afinal ninguém faria o aporte que fez sem esperar um retorno grandioso em troca, mesmo que o primeiro reflexo fosse a atenção da mídia.
Passado o entusiasmo inicial, chega a hora de pensar como tudo irá funcionar na prática. Dentre os comentários sobre o assunto que mais chamaram minha atenção, um pessimista e um realista deram uma luz para essa otimista crônica que vos escreve.
Oskar da Osklen, em entrevista para o GNT Fashion, comentou que só o aporte de capital não basta para ele vender a grife dele. É necessário um plano negócio estruturado. Também que havia recebido várias propostas para vender sua grife mas nenhuma fez seus olhos brilharem.
Já Regina Guerreiro fez a pessimista para o Chic e disse que, na opinião dela a moda brasileira ainda não está pronta para isso. Quem sou eu, para discordar dela, afinal ela tem mais anos de moda que eu de vida. Refleti bastante, e mesmo que a moda não esteja pronta para a era dos conglomerados o aprendizado será benéfico. Ganhamos de qualquer jeito.
Mas o maior alarde não veio daqui. Em entrevista para a Reuteurs, comentada aqui pela UOL, Valentino, que se despediu da moda nessa semana, diz que as empresas arruinaram a moda. Um pouco azedo, penso eu, mas com a sabedoria incontestável que seus 75 anos e quase 5 décadas de moda.
O que achei mais bacana foi a crítica que ele faz sobre os jovens estilistas. Temos jovens estilistas de mais, muitos de The Next Best Thing. Outro destaque é quando ele comenta sobre como o bussiness massacrou a criatividade, em sua opinião.
Muito se discute sobre o tal DNA, Identidade, Cara da Moda Brasileira, como queiram, além das cópias difundidas em praticamente todos os níveis da moda no país. Mas se entramos com essas questões mal resolvidas em uma era em que serão cobradas das empresas de moda cada vez mais rentabilidade, penso eu, será que Regina Guerreiro não tem razão?
A quarta “tendência” fica para noite, ok?