Como eu já disse no primeiro post dos meus arquivos da SPFW, nos bastidores do evento muitas vezes recebe um penetra nada bem vindo, o Murphy e junto com ele sua lei implacável. Muitas vezes a maioria dos fashionistas nem fica sabendo dessa visita, por conta de um staff dedicado, capaz de tudo para deixar o evento com todo o glamour que ele necessita e merece.Poderia citar milhões, mas creio que os piores entre meus piores momentos estão o dia que eu não conseguia sentar uma jornalista de uma revista de peso que chegou 40 segundos antes do inÃcio de um desfile e ela quase saiu da sala revoltada, quando fui extra de uma assessoria. Pânico! Também o dia em que driblamos meia segurança e subimos com 5 manequins debaixo do braço, porque depois do meio dia nem o Paulo Borges sobe com carrinho pela entrada de serviço. Mas um dos meus preferidos é a saga do chemisier de tricoline stretch branco, na estação passada.
8:30 – O vestido sai de sua capinha de plástico e é pendurado com sua ficha na arara.
9:00 – Chega a vez dele na passadoria
10:00 – Noto uma mancha amarelada enorme nas costas causada pelo ferro.
10:15 – Volto a respirar, ligo para um amigo e peço os telefones de todos os dry cleanears na região da Bienal.
11:00 – Ligo para minha chefe (e coordenadora de camarim) e conto para ela do problema. Ela me diz que nada sai de lá, que resolvemos esse problema quando ela chegasse.
14:00 – Chega minha chefe e um pote gigante de Vanish Powder O2.
15:00 – Após quase 40 min secando o vestido com um secador emprestado de um beauty artist que não era o nosso, percebo que a tentiva número 01 fracassou, mas que a mancha estava mais clara.
16:00 – Aparece uma boa alma com um talco.
16:10 – *correndo para o banheiro com o vestido, o talco e o Vanish na mão* Walério, o que diabos você tá fazendo deitado no chão? Sinceramente, ele estava melhor que eu. E ele estava tirando foto para o Estado.
17:00 – Tentativa número 02 de remover a mancha fracassa, mas pelo menos dessa vez o secador que eu usei já era da equipe contratada para o desfile.
18:00 – *arrancando os cabelos* – Tentativa número três fracassa e o beauty artist que me emprestou o secador não aguenta mais ver a minha cara.
19:00 – Após 4 tentativas a mancha sumiu finalmente! Quando percebi isso minha felicidade foi tanta que a descarga de energia que meu corpo soltou fez com que o secador explodisse na minha mão. Vergonha máxima.
19:15 – Saio de meu esconderijo no camarim ao lado, que estava vazio, ainda morta de vergonha, vejo que o vestido está sendo passado de novo e fuzilo a passadeira com o olhar.
19:30 – O vestido vai lindo para a arara, como se nada disso tivesse acontecido. Não posso dizer o mesmo de mim.
21:00 – A modelo veste e fica tão linda que por um momento esqueço o trabalho que deu.
22:00 – Já não sei mais quem é o vestido, quem sou, o que é desfile e porque diabos eu fui trabalhar com moda mesmo. Mas o desfile foi sucesso, pelo menos é o que denunciam os tim-tims que eu escuto perto de mim.

Mal humor a parte, dá para sentir o drama que é organizar um desfile. E esse foi só um “causo” que separei em meu modesto arquivo.