O fim do ano é normalmente época de descanso, recesso, balanço. Mas para os fashionistas do Brasil é época de intensa preparação. A temporada de moda começa em janeiro, então o fim do ano é marcado pela alucinante correria pré-temporada.
Na edição de janeiro de 2006 tive a oportunidade de integrar a equipe que coordenou a montagem do Lounge Vicunha Galeria. Para quem não está familiarizado, os patrocinadores recebem seus convidados em um hospitality center no prédio da Bienal durante a semana de moda. Nessa ocasião tive a oportunidade de vivenciar a estruturação do evento.
A organização da montagem é impecável, ponto para Luminosidade. Tudo na hora certa, tudo funciona. Brinco que a montagem funciona até melhor que o evento. Montar um hospitality center é uma tarefa ardua que começa bem antes da montagem propriamente dita.
Cerca de 5 meses antes inicia o planejamento, contato com montadoras, a pesquisa e definição do conceito. O martelo para o início do trabalho operacional só seria batido em novembro/dezembro, com todas as definições, com os orçamentos aprovados. Parece simples, mas demanda muito trabalho, diversas apresentações, incontáveis reuniões. E ansiedade. Por exemplo, para esse projeto, conseguimos a aprovação do orçamento na penúltima semana de dezembro, recebemos a notícia no almoço de confraternização de fim de ano da empresa. Ir para casa depois? Que nada, toca todo mundo voltar para o escritório para dar o start na montagem.
Parece que nada vai dar certo. Na reunião para fecharmos a programação do lounge, nada parecia se encaixar. A melhor conclusão aquele dia foi que, caso tudo desse errado, um bar pelo menos nós tinhamos e iríamos as três subir em cima dele e fazer uma performance ao som de don’t you wish your girlfriend was hot like me! Sorte do mondo fashion que isso não foi necessário.
O fim de dezembro e início de janeiro é pautado por uma correria alucinante, para reunirmos todo o material necessário para o projeto ganhar vida. Dependendo da temática isso implica alguns momentos nada glamourosos, e até um tanto desesperadores.
No Vicunha Galeria tinhamos uma oficina de criação, monitorada por alunos do Projeto Pescar, que visa a capacitação profissional de jovens carentes. Para essas oficinas os alunos receberam um intenso treinamento sobre arte contemporânea, ministrado por artistas plásticos como Nino Cais e Estela Sokol, que fazem parte do casting da Galeria Virgilio, além de uma visita monitorada à galeria. Eu era a responsável pelo treinamento, imagine a logística necessária para acomodar 24 adolescentes para almoçar no Mc Donalds da Hennrique Schaumann. Meu desespero era tão latente que tive ajuda total do gerente para a tarefa, que me olhava com aquela cara de “tadinha dela” que dava pena de mim mesma.

Outro momento memorável foi um dos adolescentes mexendo em uma obra de Nino Cais na Galeria, que consistia em um martelo pressionando uma xicara contra a parede, parte de seus exercícios com o ponto de equilíbrio dos objetos. Posso dizer que demorei 3 horas para recuperar o ar perdido na hora que vi o garoto puxando o martelo. Por sorte, estava afixado à xícara para exposição e não gerou nenhum dano. Era mais interação com arte moderna que eu podia suportar!
Na categoria “Glamour Zero” temos a visita ao cemitério de acrilíco, guiada pela Estela Sokol. Passei um sábado coletando lixo para ser utilizado como material nas oficinas, o lugar era medonho mas rendeu ótimas risadas.

Depois da intensa preparação chega a hora da montagem do espaço em si. Lembro o choque que foi entrar na Bienal underconstruction alguns dias antes do início dos desfiles As estruturas moduláveis que dão forma ao evento já estavam nos seus devidos lugares, mas o prédio era ainda uma profusão de fios e acabamentos por fazer. Foi a primeira edição com as paredes forradas em papelão e fiquei embasbacada: achei brilhante. Ok, brilhante na primeira e segunda vez, depois cansou um pouco. Hora de algo novo, penso eu.

A montagem da estrutura em si é talvez o mais impactante, os detalhes de última hora consomem muito. O bar concebido pelo artista plástico (e empresário da noite) Diego Belda, do CB e Casa Belfiore, havia sido projetado em cima da planta do HC anterior. Ou seja, não cabia. Nada que não pudesse ser contornado.

É inegável como esses detalhes de última hora stressam, corroem. Cheguei a rodar a cidade inteira em um taxi que custou quase R$ 200,00 para resolver alguns desses últimos detalhes, fazer produção para a Hostess (vestida pela Fabia Bercsek, Samuel Cirnansck e Thais Gusmão), buscar sapatos para as bonecas moduláveis. Aliás eu praticamente morava dentro de táxis nessa época. Inesquecível.

Por mais que Murphy apronte as suas é incrível como tudo dá certo no fim. Tudo pronto para a abertura, dá aquela sensação deliciosa de dever cumprido. Ledo engano, é aí começa a parte pesada do trabalho em si. Mas isso é assunto para um outro post.
